seg 10/10
lá está,
há dias sem saber como começar alguns textos, então me divirto fazendo outros - ou lendo dicionários de expressões idiomáticas, uma diversão também. enquanto lembro de umas e outras frases da infância, não paro de ligá-las a pequenas mitologias, a contos de caráter moral, ao feng shui dos móveis ou mesmo ao plástico velho que se conserva acima dos eletrodomésticos para não sujarem.
ou
casa de avó. sim, mais do que minha própria casa - sempre estou perdido nela, afinal, sempre estou perdido em você.
mirtes
mirtes é a minha avó, uma mulher de detalhes. intimidade: puxar fiapos de manga ou comer pão tostado e beber suco de uva todas as tardes, mas há ainda tanto. dos muitos vinis que ouvi no seu quarto de som, quase sempre eu só tocava cancioneiro brega ou bumba boi e, com eles, um papagaio reprisando a mesma estrofe e a dizer meu nome ao final.
a minha primeira memória é o dia do meu batismo e essas fotos têm cheiro para mim. mirtes carregada pelos filhos. meu pai empunha uma lata de brahma. meu tio usa armações oakley, se de fato lembro. usam tênis na praia.
também, com ela, a minha primeira vez em um terreiro, festa de são sebastião. ao ver o santo enorme, disse
atenção para as roupas
tive medo e corri
ela e eu, uns promesseiros
eu corri
quero dizer, parece que minha avó tinha algumas formas de virar minha cabeça e sugerir que, se você enxerga o detalhe, procure mais detalhes, procure onde se repetem esses detalhes. eu gostaria bastante de lembrar de tudo que aconteceu naquela noite, talvez alguma meditação me leve até lá, até a sua primeira lição de moda ou arquitetura, calças são o alicerce, ela diria. por enquanto, caminho diariamente às 17:30, conto números de casas, memorizo as formas e os materiais dos seus portões, olho fixamente para os adornos retidos. um são sebastião nunca vai baixar nesses lugares, penso. mas pode ser que alguma vez ele vire a rua e esteja correndo temeroso e trombe em mim. iremos nos reconhecer pelas nossas roupas, estou certo que.

